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O CASAMENTO DE LU E AS ELEIÇÕES
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- O CASAMENTO DE LU E AS ELEIÇÕES
Por: Abrahão Caliel Andrade
Dos jornais locais, em vinte de maio ano de 1998:
"Justiça Eleitoral tem novo Juiz" (DRD)
"Juiz eleitoral é nomeado (Diário do Leste)".
Sinopse das notícias da página três de ambos os jornais:
"A Justiça Eleitoral em Governador Valadares tem novo juiz. Foi nomeado para a vaga aberta com a promoção do Dr. A... para a Comarca de Belo Horizonte, e a aposentadoria do decano dos juízes, Dr. E..., o Dr. Atanagildo Ramalhete, promovido da Comarca de Santa Margarida para a oitava vara cível desta comarca onde cumulará cargo de juiz presidente da 118ª zona Eleitoral".
Ao ser entrevistado por nossa reportagem, o novo juiz asseverou: 'Sou dos mais intransigentes com todos aqueles que deixam de cumprir a lei, a qualquer tempo, por motivo que seja' E continuou: "Até minha santa mãezinha, se viva fosse, se descumprir qualquer ditame da lei, teria sua prisão, ou qualquer outro castigo legal aplicado. A lei é para todos!'"
24 de outubro. Vinte horas, residência de Luciene, a Lu.
Lu, noiva de Otavinho Madureira, tecnólogo, adventista, cantor do coral "Vozes de Sião", onde se conheceram, afinaram as vozes; ela, primeiro contralto, ele, segundo tenor. Ensaio após ensaio, afinando as vozes e os sentimentos, estes, irreprimíveis. Primeiro beijo fora das vistas de seu grupo, em ensaio, num domingo. Paixão avassaladora. Promessa de fidelidade, de eterno amor, desde que ele não se engraçasse com outra, mesmo que fosse Magdalena, amiga de infância que era sempre citada por ele. Inaceitável. Argumento irrespondível.
Lu trabalhara na eleição presidencial, primeiro turno, primeira vez. Fora convocada para o segundo turno, ainda suplente.
Noivado extra-curto, amor sem medida, data marcada. 25 de outubro, para as dez horas, quando tudo estaria calmo. Afinal, era apenas suplente. Não faria falta.
24 de outubro.Véspera do casamento. Véspera do segundo turno.
A mãe, aflita:
- Como vai fazer, minha filha? Devia desmarcar...
- Que desmarcar, que nada, mãe. Antes de me convocarem meu casamento estava marcado. Melhor trocarem a data do segundo turno.
- Ai, filha. Não seja boba. O pastor poderá mudar o horário. Seu pai até conversou com ele. Está nas suas mãos.
- E por que essa preocupação?
- Você viu o que esse juiz novo fez? Acaso leu os jornais?
- Eu não quero nem saber. Afinal de contas não acredito que ele vá fazer alguma coisa comigo.
O noivo, calado, observa Lu. Nada fala, pois sabe o quanto Lu é intransigente. Renitente Irredutível.
- O que você acha, Otávio? - pergunta a futura sogra.
- Eu? Nada, não, senhora. Não acredito que possa haver qualquer coisa.
- Se a Lu fosse presidente de seção, primeiro ou segundo mesário, ou secretária, poderia dar galho. Ela é apenas uma suplente.
- É isso aí, meu bem - Lu sorri, contente com o apoio do noivo. Abraça-o. Beija-o. A mãe desvia os olhos, pudica. A filha sempre fora dada a arroubos.
Lu continua falando:
- Depois do casamento, almoço para os convidados. À tarde, seis e meia o mais tardar, a viagem para Vitória, para a lua-de-mel. Sem problemas. Que a senhora acha, mãe?
- Tomara que seja assim. Deus é quem sabe.
A mãe vai para dentro de casa, o peso oprimindo o peito. Vaticínio? Os noivos se abraçam. Beijam-se.
- Eu te amo - diz Otavinho.
- Eu duvido que me ame tanto assim.
- Muito mais do que pensa.
Beijam-se de novo.
Ele se levanta, caminha para a porta, a mão segura o braço de Lu que levanta e o segue. Abraça-o.
- Se você se esquecer, ou chegar atrasado, Tavinho, eu mato. Umas cinco ou seis vezes.
- Fique tranqüila, meu amor. Estarei lá a sua espera.
Ao portão, novo beijo. Longo, doce, cheio de promessas.
Lu, a Luciene, suplente de seção eleitoral convocada para o segundo turno, solta-se lentamente do abraço caloroso de Otavinho. Seu peito fervilha de amor, fogo, paixão. Alegria.
"Oh, Senhor, meu Deus e Pai. Não deixe que nada de ruim aconteça amanhã em meu casamento. Não deixe nem chover. Por Cristo nosso Senhor e Salvador". Ela reza, oração de agradecimento e pedido. Feliz.
Continua...
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