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O CASAMENTO DE LU E AS ELEIÇÕES
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- O CASAMENTO DE LU E AS ELEIÇÕES
Por: Abrahão Caliel Andrade
continuação
Manhã de domingo. 25 de outubro.
Lu já se levantara, tomara banho de chuveiro, água farta. Banho de noiva. Demorado. Perfumado. Relaxante. Sua amiga Késia, a mais amiga de todas as amigas, chegara logo após a saída de Otavinho e a ajudara a passar o vestido de noiva. Branco gelo, cheio de pérolas. Montara a tiara de flores e pedras ao véu. Agora penteava os bastos cabelos castanhos claros num penteado de tranças embutidas. "Vai ficar chocante", ela dissera para Lu.
Na cozinha, a mãe e uma amiga preparavam os acepipes para o almoço festivo. Ultimava os preparativos, dirigia a casa, como deveria ocorrer, para que nada saísse fora dos eixos.
- O pastor Emanuel gosta de carne branca, irmã. Vamos reservar pelo menos um bom pedaço de peito de frango para ele.
É o comentário da amiga, líder da sociedade de mulheres adventistas. Um rochedo na fé. Uma vigilante dos costumes, das normas. "Ao pastor o melhor que possamos oferecer". Seu lema. Seu dístico.
- A irmã sabe quantos convidados? - pergunta, para calcular o que fazer e o quanto fazer.
- Tirante todo o mundo da igreja, talvez mais uns trezentos.
- Santos céus! O que a irmã pretende fazer?
- Meu marido e o Otavinho contrataram garçons e um bufê para servir aos convidados. O homem previdente é abençoado.
- E este almoço, irmã...
- Ora, somente para os da casa, os padrinhos, o pastor que vai celebrar, pouca coisa, acredite.
Lá no quarto, Lu e Késia riem. Ninguém sabe o que conversam. Cochicham.
Coisas de moças. De madrinha e noiva. Que nos interessa.
Seção eleitoral. Nove e meia.
- A suplente não veio? - pergunta um funcionário do fórum.
- Não. Mas não tem problema. Os trabalhos estão correndo tranqüilos. O povo não está com pressa. Afinal é só o segundo turno. Acho que ninguém está preocupado.
Quem explica é o presidente da seção.
- O juiz não vai gostar. Mesmo tendo nomeado outro eleitor para o lugar da faltosa, vou ter de reportar ao juiz.
A secretária intervém.
- Me parece que ela falou que ia se casar, hoje ou se casou ontem. Não tenho certeza da data.
- Isso não importa. Se ela foi convocada, não pôde vir, que fizesse carta pedindo dispensa ou substituição. Ela foi convocada, deveria cumprir a lei.
Sai, como se tomado por santa ira.
A equipe da seção se entreolha.
- Bobagem - diz o primeiro mesário. Sei que o juiz não vai fazer nada. Ainda mais que a equipe está completa.
- Sei lá - diz o presidente. - Vocês ouviram o que ele fez com um segundo secretário, lá em Santa Rita? Botou o homem no cadeião, mesmo tendo sido o tal que teve de ir ao hospital levar a mulher para ganhar neném.
- Esse juiz parece que é meio doido - diz a segunda secretária encaminhando-se para atender mais um eleitor que chega.
Dez horas. Fórum. Salão do júri.
- Pois foi isso que verifiquei, doutor. Na seção 76 faltou a suplente. Mas contornaram o problema nomeando outro eleitor para o lugar da faltosa.
- Inadmissível! - ruge o Dr. Ramalhete. Seus olhos soltam fagulhas. Arregalados, Irados. Furibundos. - É um acinte! Um desrespeito inominável! Ninguém pode desrespeitar um juiz. Me desrespeitar. Chame a escolta. Vá buscar essa criminosa debochada! Onde ela estiver prenda-a. Leve-a para o cadeião. Há de servir de exemplo para quem pensar em algum momento desdenhar de qualquer determinação minha. QUI ILLI DI IRATI!
O funcionário tenta contemporizar.
- Pelo que a equipe da seção falou, ela ia se casar hoje, ou se casou ontem.
- Não importa. Vá com a escolta e prenda essa infratora. Criminosa eleitoral.
O funcionário sai, faz um sinal para o policial de plantão. Caminham para o elevador.
- Temos um pepino para descascar, Gilson. Faltou uma suplente à convocação. Não foi trabalhar.
O soldado ri.
- Suplente? Pôxa, Wagner, se fosse um presidente de seção, um primeiro mesário, vá lá!... Mas suplente? O Meritíssimo tá meio pirado...
O funcionário meneia a cabeça, concordando.
- É. Mas quem manda é ele. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.
- Então vamos lá. De viatura?
- Claro. É missão oficial. Eu tenho o endereço.
A viatura parte, as sirenes ligadas, gemendo a ameaça sonora. Os carros encostam, dando passagem. Transeuntes param. Seguem a viatura com os olhos cheios de curiosidade. Amedrontados.
Dez e trinta e cinco. Igreja adventista. Os irmãos compenetrados assistem ao casamento de Lu e Otavinho.
O noivo de terno claro. A noiva, deslumbrante em seu vestido branco gelo, com pérolas. Seu sorriso é contagiante. Todos estão contentes, sussurram entre si, comentam o belo casal, em frente ao pastor, que terminara seu sermão, seguira todo o ritual.
Diz o pastor:
- Bem, caros Otávio e Luciene. Chegamos ao momento mais importante da cerimônia do casamento de vocês. Mas antes de fazer a declaração solene que vai transformar vocês dois em um único ser, unidos pelo amor, devo perguntar para a assembléia: - levanta os olhos para os assistentes embevecidos. Vê chegando, ao fundo, um desconhecido, acompanhado por um policial armado. Imagina ser algum parente retardatário. - Se alguém sabe algo que possa impedir este casamento que fale agora ou se cale.
O funcionário do fórum se adianta juntamente com o policial militar. Declara:
- Em nome da Justiça Eleitoral, este casamento não deve prosseguir por que a noiva está presa, por cometer crime eleitoral, por ordem do meritíssimo juiz Dr. Atanagildo Ramalhete, digníssimo presidente da 118ª Zona Eleitoral!
Comoção dentro da igreja. "Ohs!", percorrem a assembléia. De incredulidade. Otávio, boquiaberto, encara Lu. Lu, pálida, começa a rir. Puro nervosismo.
- O senhor não pode... - começa o pastor. É interrompido pelo oficial acobertado pelo policial, que empunha o revólver. Na mão esquerda as algemas.
- Claro que posso. Sou representante da autoridade e estou na captura de uma meliante. Uma criminosa.
- Oh, céus! - O brado meio abafado que sai da garganta dos presentes.
- Isso é muito engraçado - diz Lu, rindo e chorando. Gargalha. - Por quê? - pergunta finalmente.
- A senhorita deixou de cumprir ordem estrita do Dr. Juiz Eleitoral.
- E daí? - retruca, o rosto começando a avermelhar-se. De raiva. - Meu casamento foi marcado bem antes dessa porcaria de segundo turno.
- Eleger seu governante é um direito e um dever...
Por um momento todos ficam estatelados de surpresa. Lu esbofeteara o oficial do fórum.
- Por favor, pessoal. Acalmem-se. Me deixem terminar a cerimônia do casamento.
O pastor Emanuel tenta colocar um pouco de ordem na casa.
- Ela me agrediu. Prenda-a, Gilson.
Guarde a arma, seu guarda - pede o pastor. - O senhor está no interior de uma casa de oração. Um templo consagrado.
O soldado olha para o oficial, desconcertado.
- Prende ela logo, pombas - manda o oficial. - Prende todo mundo!
O soldado ri.
- Meu revólver tem cinco balas. E uma já foi usada e mascou. Você tá é doido se acha que vou prender todo mundo.
- Prende a criminosa eleitoral então, pombas!
Lu ri.
- Criminosa eleitoral? Eu? Não fiz boca de urna, não comprei voto com lata de óleo nem quilinho de feijão. Muito menos alterei pesquisa pra poder ganhar. Criminosa, eu? Vão plantar batatas os dois!
- Deixou de cumprir mandado de juiz, estando nomeada para trabalhar nas eleições. Faltou. É crime. Vai presa!
O pastor, meio perdido:
- Senhores, me deixem terminar esse casamento.
Otavinho, que se sentara ao lado do órgão, volta para junto de Lu, que se abanava com o buquê.
- Eu bem achei que fosse dar galho. Mas não desse tamanho.
- Nem vem, nem vem! Esse juizinho é que sofre de megalomania. Eu era apenas uma simples suplente, que não faria falta de jeito nenhum. Estava escalada para cobrir a falta de alguém. De qualquer um dos outros que acaso faltasse. Mas não tinha problema. A turma que trabalhei é toda de Caxias.
- Eu sei, meu bem. Mas nós bem que podíamos ter pedido sua substituição...
- Pode parar! Pode parar, mesmo! Eles é que não podiam marcar esse segundo turno para o dia de meu casamento!
O soldado Gilson se aproxima. Pega Lu pelo braço.
- A senhora está presa. Queira nos acompanhar, por favor.
- Tira as mãos de mim, seu... seu... nojento. Eu sou quase uma senhora de respeito! - volta-se para Otavinho: - Você é quase meu marido, não vai defender sua quase esposa?
- Solte minha noiva, seu guarda. Ela não vai fugir.
Os presentes fazem coro:
- Solta! Solta! Solta!
- Silêncio no recinto! Estamos em meio a uma celebração religiosa! - O pastor Emanuel tenta por ordem no caos reinante. Dirige-se ao meirinho. - Senhor oficial, não há meio de evitarmos isso?
- Não, Sr. Pastor. Se eu não cumprir a ordem do Dr. Ramalhete, o próximo preso no cadeião serei eu.
Confabulam com os noivos, os pais e testemunhas. Voltam todos ao meirinho.
- Por favor, deixe-nos terminar o casamento então - pede o pastor.
- De maneira nenhuma. Ela me agrediu.
Foi sem querer - defende-se Lu. - Eu fiquei apavorada.
- É. Ela ficou apavorada - reforça Otavinho. - Por favor, seu Wagner. O casamento está quase terminando.
- Peraí, meu bem - intervém Lu, meio que irritada. - Que negócio é esse de meu casamento estar quase terminando? Ele nem começou direito! Você está querendo dar o fora?
- Não, amor. Estou falando que a cerimônia está quase terminando. E se o oficial de justiça deixar nós sairemos daqui casados...
- Para a cadeia. Terminem a cerimônia lá - diz o oficial, intransigente.
- Impossível - retruca o pastor. - Cadeia não é local consagrado. Não podemos celebrar um casamento religioso na cadeia.
O policial faz sinal para o meirinho, que se aproxima.
- Vamos deixar o casamento se realizar, Wagner. Depois a gente recolhe a moça. E se for preciso, a gente chama reforço.
O oficial de justiça coça o queixo. Decide-se.
- Está bem. Podem terminar. Em seguida, nós vamos levar a infratora para a prisão.
Enfim, a igreja se acalma. Todos se sentam e aguardam o reinício da cerimônia.
- Estamos aqui para... hum, hum... - é o pastor, tentando reiniciar mas parece perdido. - Já passamos por isso... deixa ver... Ah, sim. Aqui está: Se alguém sabe o que pode impedir este casamento que fale agora...
O meirinho se adianta. Lu fuzila-o com os olhos. Ele recua.
- O senhor já fez essa pergunta, pastor - intervém o pai de Lu. - Não há ninguém. Vamos em frente.
- Pelo poder a mim investido por esta assembléia e pelo Estado de Minas Gerais, eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.
O coral canta "Jesus Alegria do Mundo". A assistência aplaude. Késia adianta-se para abraçar a amiga. Lu e Otavinho se beijam. Ainda abraçados, o soldado algema Lu. Consternação. Um movimento de revolta avassala os convidados. Percorre a igreja. O pai da noiva pede calma, os braços abertos. A mãe da recém casada desmaia.
- Podemos parar de gravar? - pergunta alguém do alto do balcão.
- Ai, meu Deus. Os idiotas filmaram tudo, Tavinho! Que vexame! Que vexame!
- Pelo menos nosso casamento será inesquecível, meu bem. Nunca ninguém se casou em meio a tanta confusão.
- Queira soltar a meliante, senhor.
É o meirinho, querendo levar Lu para a prisão.
- Eu vou com ela, oficial - retruca Otavinho. - Não a deixarei sozinha nesse transe difícil.
Passam pela nave central, caminham pelo corredor formado pelos convidados, em direção à saída.
-Parabéns, Lu.
- Felicidades nesta nova vida...
- Parabéns, Otávio...
- Dá-lhe Lu...
Cumprimentos à direita e à esquerda.
- E como vai ser a recepção? - alguém pergunta.
No topo da escadaria, o pai da noiva faz um gesto pedindo a atenção dos presentes.
- Pessoal, primeiro, nós vamos resolver esse problema. Depois a gente retoma a recepção.
- Vamos - é o meirinho, sucinto. Cara amarrada. Cumprindo seu dever.
O soldado Gilson segura Lu pelo braço. Otávio segura-a pelo outro. Ampara-a. O meirinho desce a escadaria e abre a parte traseira da viatura.
Lu estaca.
- Atrás eu não vou. Não vou entrar no camburão, vestida de noiva.
Nunca! Prefiro morrer!
Otavinho se adianta.
- Seu guarda, eu vou com ela.
O soldado ri, desconcertado. Olha o meirinho. Procura solução para o impasse.
- O senhor não pode ir. É estender a pena a quem não tem culpa. É ilegal.
- Não importa - Otavinho redargüi. - Aonde minha mulher for eu irei. Onde ela estiver, eu estarei também.
- É o Cântico dos Cânticos, meu amor - Lu olha para ele, embevecida. Amando-o acima de tudo. Mais do que ela poderia imaginar.
- É a única verdade, meu bem.
O meirinho e o soldado abaixam a cabeça, desconcertados. Ambos pensam a mesma coisa: se pudessem, deixariam o casal em paz. Porém, maior que todo o sentimento, há a espada cruel da justiça do Dr. Atanagildo Ramalhete pendurada sobre a cabeça de cada um deles. Pragmaticamente, melhor cumprir a ordem. Cumprir o mandado. Ponto final.
- Tudo bem - contemporiza o oficial de justiça. - O senhor acompanhe sua esposa.
- Até o fim do mundo - diz Otavinho.
- Nem tanto. Até o cadeião.
O pai de Lu, acompanhado de Késia e da mãe de Otavinho se aproxima da viatura.
- Pode deixar, filha. Vamos resolver isso, logo, logo.
- Tudo bem, pai. Veja se a recepção continua. Vá servindo os convidados como se não houvesse acontecido nada.
Vê a equipe filmando.
- Pede pro pessoal parar de filmar. É vexame demais que gravaram.
Acomoda-se no banco de trás da viatura. Otavinho senta-se a seu lado. O veículo parte. Desce até a rua São Paulo, onde dobra para a esquerda. Lá atrás, na rua em frente ao templo, grupos de convidados das testemunhas, ficam observando. Enchem a rua Omar Magalhães, atônitos. Todos. E agora?
- Pastor, o senhor pode ajudar-nos a resolver este imbróglio? - pede o pai de Lu.
- Certamente. Mas, primeiro, temos de ver como agir. Precisamos de um advogado. Vou ligar para o Teixeira, nosso irmão e advogado criminalista dos bons.
O pai volta-se para a esposa que recobrara do desmaio.
- Vá encaminhando o pessoal lá para casa. Daqui a pouco tudo estará resolvido. Quando a Lu e o marido chegarem, todos estarão em casa, servindo-se e regalando-se com o almoço. Os garçons já devem estar lá. Vá lá e avie-os, filhota. Vou com o pastor encontrar com esse advogado. Vamos conversar com o juiz.
Saem todos. Cada qual para um local, para sua missão: a mãe, adiantar a recepção; o pai, o pastor e um amigo, para falar com o juiz. Os convidados, cada qual em seu proveito, adianta-se para a casa da noiva. A meliante. Criminosa eleitoral. Lu. Luciene, a suplente faltosa.
Onze e quarenta. Pátio da cadeia pública.
Um sol amarelento, de chuva, brilha fosco, iluminando o pátio, os prisioneiros. Criminosos contumazes. Ladrões, assassinos, ventanistas, traficantes. Eleitorais.
Lu. Noiva. Vestido branco gelo, com pérolas bordadas, o longo véu desfilando. O buquê no braço. A tiara entremeada de flores. Trabalho de Késia, a amiga, para tornar a noiva mais bonita do que é normalmente.
Lu apanha a ponta do véu, caminha para o lado direito do pátio. Um preso, da cela, a vê caminhando nervosa.
- Joga o buquê pra mim, boneca.
Os outros presos riem. Assobiam.
Otavinho sentado a um canto, gravata desatada, a camisa aberta, olha desconsoladamente para a noiva, digo, esposa.
- Vem cá, meu bem. Senta aqui.
- Não posso. Pode quebrar a armação da saia.
Caminha até ele.
- O que será que está fazendo demorarem tanto? - pergunta para o noivo, quero dizer, marido. - Já era para estarem aqui.
Um policial vigia do alto da guarita. Está curioso. Mas não pode falar com os prisioneiros.
- Talvez estejam conversando com o juiz - diz Otávio. - Daqui a pouco vamos para a recepção, você vai ver.
Lu se abana com o buquê.
- Ah, se eu soubesse... se eu soubesse...
- Não teria faltado ao trabalho na seção?
- Não. E teria marcado nosso casamento para as seis da tarde.
Otávio levanta-se. Segura Lu pelos ombros.
- Tá tudo bem. Vai ser um barato contar isso para nossos filhos.
- Eles não vão acreditar.
- O filme vai provar.
- Vão pensar que é gozação, montagem, sei lá.
Ela olha a porta de acesso ao pátio.
O pai, o pastor, um estranho. O advogado Teixeira.
- Já estamos livres?
O pai está macambúzio. O pastor, desconcertado.
- O juiz viajou. Não sabem se para Alpercata ou para Frei Inocêncio, ou para qualquer um dos distritos de Valadares. Estamos tentando entrar em contato com o Tribunal, com um hábeas corpus.
- Não sabemos mais o que fazer - diz o pai.
- E a recepção, pai? E a viagem pra Vitória? Como vamos fazer?
Há uma ponta de desespero em sua voz.
- Vamos continuar tentando, Luciene - diz o advogado. -Temos de coibir esta arbitrariedade. Irei até ao Supremo!
- Supremo Tribunal? - ela pergunta. - Demora quanto tempo?
- As decisões? Pelo menos uns dois anos - informa o advogado.
- Ai, meu deus. Vou criar minha família na cadeia? - desconsolada, faz cara de choro.
- Não seja tão negativista, minha filha - diz o pai, tentando consola-la. - O juiz vai voltar ainda hoje e logo vamos sair daqui e daremos umas boas risadas disso tudo.
Lu se abraça ao marido. Ele lhe sorri, encorajando.
- E como está a recepção? - ela quer saber.
- O pessoal foi lá para casa, mas está dizendo que só vão almoçar depois que vocês chegarem.
- Pelo jeito vão morrer de fome - comenta Otavinho, distraído.
- O que você disse?
- É isso, bem. O pessoal vai morrer de fome. O juiz pode voltar somente depois das cinco da tarde, quando a eleição tiver terminado. Daí, só depois das seis é que irá tirar você daqui...
- Me tirar? Só a mim? Você não está pensando em sair e me deixar sozinha neste lago de dor e sofrimento, pois não?
- Nem me passa pela cabeça deixar você sozinha.
Um prisioneiro intervém, da janela da cela.
- Pode deixar, moço, que nós toma conta.
Lu, apavorada, agarra o braço do pai.
- Pai, acha esse juiz, pelo amor de Deus. Ficar aqui vai ser dose.
- Vamos resolver isso já. Não fique nervosa. Eu falei com o delegado que dirige o presídio. Ele disse que vai ver se arranja um lugar mais reservado para vocês ficarem.
Saem o pai, o pastor, o advogado. Após alguns minutos retornam.
-Infelizmente, Lu, você vai ter de ficar aqui. O juiz proibiu qualquer benefício.
- Tudo bem. Eu aguardo - está resignada.
Eu vou continuar com ela - diz Otavinho, abraçando-a.
Saem todos, deixando a criminosa e seu marido caminhando sob o sol pálido que anuncia chuva.
- Será que em Guarapari está chovendo? - Lu pergunta.
- Que importância tem se nem saímos de Valadares.
- É que eu quero estrear um biquíni que ganhei, uma beleza! Ce vai ver.
- Estréia aqui pra nós - diz um preso. Os outros riem.
- Chato!
Casa de Luciene. Meio-dia e meia.
O juiz falou que não solta ela de jeito nenhum - diz o pai, passando a mão na cabeça, desconsolado. - Ela deve servir de exemplo para todos, ele disse. O Dr. Teixeira entrou em contato com o TRE em Belo Horizonte. Parece que ele tem algum conhecido lá, que pode ajudar.
- O que vamos fazer? - A mãe, atarantada, pergunta. - A minha pobre filha passando por todo esse vexame por causa de um juizinho ensebado.
- Não diga isso, meu bem. Ele quer que a lei seja cumprida. Por todos.
O chefe dos garçons se aproxima.
- Podemos servir, madame?
- Hein? Não... não sei. Não sei de nada. Eu quero minha filha! Lu! - ela grita e se põe a chorar.
A amiga Késia se aproxima e a abraça.
- A senhora não deve chorar. Vi desestruturar todo mundo.
Volta-se para o pai de Lu.
- E a gente pode visitar a Lu?
- O delegado lá do presídio não opôs nenhuma resistência. Também acha que o juiz foi extremamente prepotente.
Ela sorri.
- Eu acho que estou tendo uma idéia - diz ela, saindo em direção ao chefe dos garçons. Reúne-os e dá explicações. Em seguida, vai de mesa em mesa, onde os convidados esperam, pacientes, bebendo refrigerantes. Conversa com cada um e os incita. Gestos largos, riso solto, a cabeleira escura dançando ao sabor da vontade forte.
Cadeia Pública. Uma e quinze.
- Uma porção de carros está parando em frente - avisa um policial
De um dos carros descem o pai de Lu, o pastor, o advogado. Caminham para a sala do delegado, que lia um livro. Em seguida, após confabularem, retornam, juntamente com o delegado. Este se adianta para o grupo de policiais que faz a segurança do presídio.
Está tudo certo. Pode deixar entrar todo mundo. São os convidados da noiva presa.
Dos carros descem os garçons carregando bandejas, pratos e talheres. E junto a comida do casamento. Por último, o bolo. Grande. Branco. Alto. Com o casalzinho em cima. Em seguida, um caminhão chega trazendo as mesas e cadeiras que vão sendo descarregadas e encaminhadas para o interior da prisão.
Lu e Otavinho estão recostados ao muro. Ouvem a algazarra. Assustam-se.
- Meu Deus! Uma rebelião! Me proteja, Tavinho. Não quero morrer!
- Fique calma, meu bem - ele diz. Olha apavorado para a porta.
De lá surge o primeiro garçom. Instala a mesa ao centro do pátio. Em seguida, vão entrando os convidados de Lu e Otavinho, o vasilhame de comida, os talheres, as caixas de refrigerantes. Em segundos armam a mesa principal, dos noivos. Dos pais, do pastor.
Késia adianta-se e abraça a amiga.
- Parabéns, Lu. Que seu casamento seja tão cheio de felicidade quanto está sendo de confusão.
Todos participam da festa de Lu. Da alegria de seu casamento. Guardas. Prisioneiros. Visitantes de presos. Convidados de Lu e Otavinho. Um grupo canta. Todos riem. O delegado senta-se como convidado de honra, ao lado do pastor.
Quatro e meia.
O advogado.
Nas mãos um papel. Hábeas corpus.
Lu livre. Da cadeia. Os presidiários, felizes, cumprimentam os noivos. Otavinho segura a mão da mulher. Sua mulher. Sua companheira.
Riso bobo no rosto suado.
Retorno rápido à casa de Lu.
Ela se troca. Beija os pai, a amiga Késia. Mala pronta na mão.
Otavinho se troca. Aperta a mão de todos os amigos. No bolso, a cópia da certidão de casamento. Tudo pronto.
- Vamos bem?
Saem correndo. Os amigos jogam arroz. Para dar sorte.
Tomam o carro. Partem.
Lu pede para parar na seção 76.
Tem de votar, senão paga multa.
Pode?
F I M
Para Luciene - Lu - Alves.
Voltar...
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